Resolução BCB n°538 e CMN n°5.274: OSINT como Elemento Estrutural de Conformidade

Como estruturar processos de segurança e gestão de riscos capazes de atender às novas exigências do Banco Central, sem depender de soluções complexas ou caras.

  • Everton Adami
8, janeiro 2026

A publicação da Resolução BCB nº 538/2025 reforça uma mudança que já vinha se consolidando na supervisão do Banco Central: controles de segurança cibernética precisam ser mensuráveis, verificáveis e sustentáveis ao longo do tempo.

Para instituições reguladas o desafio não está apenas em implementar controles, mas em demonstrar continuamente que eles estão em funcionamento, sobretudo em ambientes altamente dinâmicos.

Nesse cenário, OSINT (Open Source Intelligence) surge como um caminho pragmático para elevar maturidade e conformidade sem depender inicialmente de investimentos elevados em ferramentas complexas.

O valor está no processo estruturante de visibilidade externa, gestão de risco e geração de evidências, diretamente alinhado às expectativas da BCB n° 538.


O ponto de atenção trazido pela BCB 538

A nova resolução amplia o foco sobre:

  • conhecimento e controle da superfície de exposição digital;
  • rastreabilidade de eventos e decisões de segurança;
  • evidências contínuas de monitoramento e resposta;
  • integração entre segurança cibernética, risco operacional e governança.

Na prática, isso evidencia uma fragilidade recorrente: o que está documentado internamente não reflete, necessariamente, o que está publicamente acessível.

Sem um processo estruturado de observação externa, torna-se difícil sustentar, perante auditorias e supervisão do Banco Central, que a organização mantém controle efetivo sobre sua exposição.


Por que OSINT se torna um habilitador imediato

A Resolução BCB 538 exige que a instituição demonstre domínio sobre seus riscos cibernéticos, inclusive aqueles que se manifestam fora do perímetro tradicional.

Um dos principais méritos do OSINT é permitir que a empresa comece pela definição e execução de processos, antes mesmo de discutir a adoção de ferramentas corporativas ou plataformas de alto custo.

A partir de fontes abertas e dados públicos, é possível:

  • mapear a superfície externa real da organização;
  • identificar exposições que não aparecem em inventários internos;
  • acompanhar mudanças contínuas em domínios, serviços e ativos;
  • gerar insumos objetivos para gestão de risco e conformidade.

Esse modelo reduz barreiras de entrada e permite que líderes atuem de forma incremental, priorizando maturidade operacional antes de complexidade tecnológica.


Síntese Executiva

A abordagem apresentada neste artigo cobre, de forma prática e incremental, os principais eixos da Resolução BCB nº 538/2025, com destaque para:

  • Inteligência cibernética contínua (Art. 3º, §2º, XIV)
  • Gestão efetiva da superfície de exposição externa
  • Avaliação e priorização de vulnerabilidades baseada em risco real
  • Geração de evidências sustentáveis e auditáveis
  • Integração entre segurança cibernética, risco operacional e governança

Tudo isso pode ser iniciado sem investimentos imediatos em ferramentas caras, a fim de que a instituição foque primeiro na estruturação de processos, conforme esperado pelo regulador.

Essa abordagem reduz riscos regulatórios, melhora previsibilidade em auditorias e cria uma base sólida para evolução futura da maturidade de segurança e conformidade.


Como estruturar OSINT de forma alinhada à BCB 538

O uso eficaz de OSINT para fins regulatórios depende menos de ferramentas sofisticadas e mais de processos claros, repetíveis e bem governados.

Visibilidade externa contínua

O primeiro passo é estabelecer um inventário externo mantido de forma recorrente, capaz de identificar:

  • domínios e subdomínios ativos, inclusive legados;
  • serviços, APIs e endpoints expostos;
  • endereços IP públicos e infraestrutura associada;
  • relações entre ativos que evoluem ao longo do tempo.

Esse inventário já atende a um ponto central da BCB 538: conhecimento demonstrável do escopo e da exposição da instituição.


Correlação com risco e impacto regulatório

Dados isolados pouco contribuem para a tomada de decisão.

A maturidade surge quando a organização consegue correlacionar:

  • exposição pública,
  • características técnicas relevantes (protocolos, versões, configurações),
  • e impacto potencial em processos críticos e requisitos regulatórios.

Essa correlação permite priorizar ações não pelo volume de achados, mas pelo risco real à operação e à conformidade com a BCB 538.


Geração de evidências sustentáveis

A resolução reforça a necessidade de rastreabilidade e comprovação contínua dos controles.

Processos de OSINT bem estruturados permitem:

  • manter histórico de exposições identificadas e tratadas;
  • registrar alertas, decisões e ações corretivas;
  • demonstrar monitoramento contínuo da superfície externa;
  • produzir evidências reutilizáveis para auditorias internas e externas.

Isso reduz o esforço reativo típico de períodos de auditoria, o risco de inconsistências em processos de supervisão e fortalece a posição da empresa perante o regulador.


Integração gradual com governança

À medida que o processo amadurece, os resultados de OSINT podem ser integrados a:

  • fluxos de correção técnica;
  • modelos de risco operacional;
  • relatórios executivos e comitês de risco.

O ponto central é que a governança pode evoluir de forma incremental, acompanhando o crescimento da organização e suas obrigações regulatórias.

Nesse formato, OSINT deixa de ser uma atividade técnica isolada e passa a atuar como fonte estruturada de informação para decisões de negócio e conformidade.


O efeito prático dessa abordagem

Ao adotar OSINT como processo (e não como ferramenta) as instituições conseguem:

  • iniciar rapidamente a jornada de conformidade com a BCB 538;
  • reduzir exposições não mapeadas;
  • priorizar riscos relevantes com base em evidências;
  • diminuir custos iniciais e retrabalho;
  • construir uma base sólida para evoluções futuras de segurança e compliance.

A conformidade deixa de ser um projeto pesado e passa a ser uma capacidade operacional contínua.

Mais do que atender à Resolução BCB 538, a organização fortalece sua capacidade de gerenciar riscos de forma proativa e sustentável.


Tabela Comparativa Executiva

Resolução do Banco Central e CMN × Tópicos do Artigo (OSINT como Processo)

Dispositivo da Resolução BCB 538 e CMN 5274Exigência RegulamentarTópico do Artigo RelacionadoComo o OSINT contribui (visão executiva)
Art. 3º, §2º, incisos III e IVPrevenção e detecção de intrusão e vazamento de informaçõesVisibilidade externa contínuaIdentifica serviços, domínios, APIs e ativos expostos publicamente que podem ser explorados para intrusão ou exfiltração de dados.
Art. 3º, §2º, inciso VIIIAvaliação e correção de vulnerabilidadesCorrelação com risco e impacto regulatórioDescobre ativos não mapeados que devem entrar no ciclo de gestão de vulnerabilidades, orientando priorização.
Art. 3º, §2º, inciso XIMecanismos de proteção da redeVisibilidade externa contínuaPermite validar, externamente, se a segmentação e exposição de rede estão coerentes com os controles definidos.
Art. 3º, §2º, inciso XIIGestão de certificados digitaisCorrelação com risco e impacto regulatórioDetecta certificados expostos, expirados ou mal configurados visíveis publicamente.
Art. 3º, §2º, inciso XIVAções de inteligência no ambiente cibernético (Internet, Deep Web e Dark Web)Por que OSINT se torna um habilitador imediatoOSINT operacionaliza diretamente esse inciso, permitindo monitoramento contínuo sem dependência inicial de plataformas complexas.
Art. 3º, §3º, inciso ISegurança no desenvolvimento de sistemasVisibilidade externa contínuaValida se aplicações novas ou alteradas estão expondo informações indevidas após deploy.
Art. 3º, §6ºControles aplicáveis a sistemas de terceirosIntegração gradual com governançaPermite verificar exposição de ativos desenvolvidos ou operados por terceiros, além do que consta em contratos.
Art. 3º, §7ºRastreabilidade e trilhas de auditoriaEvidências que não dependem de auditoria pontualGera histórico de descobertas, análises e decisões, complementando logs e trilhas internas.
Art. 3º, §8º, incisos I a VTestes, varreduras, intrusão e correção tempestivaCorrelação com risco e impacto regulatórioApoia definição de escopo de testes e priorização de correções com base em exposição real.
Art. 3º, §§9º a 11ºControles de acesso e proteção de redeCorrelação com risco e impacto regulatórioIdentifica acessos externos indevidos, serviços sem MFA ou portas/protocolos expostos.
Art. 3º-A, inciso I (Pix, STR, RSFN)Monitoramento de credenciais, certificados e integridadeCorrelação com risco e impacto regulatórioDetecta vazamentos ou menções públicas a credenciais e ambientes críticos.
Art. 8º, §1º, incisos III a VRelato de incidentes, testes e vulnerabilidadesEvidências que não dependem de auditoria pontualProduz insumos objetivos para relatórios periódicos à alta gestão.
Art. 22-ATestes de intrusão independentes e documentadosCorrelação com risco e impacto regulatórioComplementa pentests com descoberta contínua de superfície externa.
Art. 23, incisos VIII a XRetenção de registros e documentaçãoIntegração gradual com governançaFacilita retenção organizada de evidências para fiscalização e auditorias.


Consideração Final

A Resolução BCB 538 não exige sofisticação tecnológica imediata. Ela exige consistência, visibilidade e controle demonstrável.

OSINT oferece exatamente isso: um ponto de partida acessível, acionável e alinhado às expectativas do regulador, desde que estruturado como processo.


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  • visibilidade contínua da superfície de exposição;
  • integração entre segurança, risco e governança;
  • geração de evidências para conformidade regulatória;
  • evolução de maturidade sem dependência imediata de ferramentas caras.

Se sua organização precisa avançar na conformidade com a BCB n° 538 e CMN n° 5.274 de forma pragmática e sustentável, esse é um bom ponto de partida para a conversa.

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